terça-feira, 13 de maio de 2025

"JENIALIDADE"

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Haja paciência para que se possa ter uma digna sobrevivência.

Hora de acordar, caminhar por ruas esburacadas, mal tratadas e você tropeça na falta de respeito das pessoas que encontram pelo caminho.
Tenta atravessar uma passarela e tem que se espremer nas grades, poorque o inflado egoismo de um grupo de três pessoas conversando lado a lado ofuscou a visão não permitindo que me visse em sentido contrário.
Chego à uma estreitíssima calçada e o fato se repete. Um casal tão apaixonado que não vê mais ninguém no caminho e não conseguem simplesmente por uma fração de segundo largarem as mãos. Eles estão indo, sem se preocupar com quem está vindo.

Chego no ponto de ônibus e aí é um salve-se quem puder, todos querem entrar primeiro, é um empurra-empurra. Prioridade, não existe. Mochilas às costas, ou deixadas no banco que deveria estar vazio. Penduram-se aos ferros e não dão licença, estacionam nas portas. A gentileza é história do passado, apenas guardada na memória de algum museu.

Não é nada diferente quando vou às compras, os preços estão caros, a grosseria é gratuita.
Nos corredores e, principalmente, quando se chega ao caixa. Furam a fila, também não se respeitam as prioridades, deixam produtos na esteira, carrinhos pelo caminho. Não tem pressa de embalar as compras, muito menos para efetuar o pagamento - calmamente pegam a carteira que está na bolsa, procuram o cartão, e ainda pegam o cartão errado. Consultam o saldo no celular que não consegue sinal de rede. Parece que estão passeando em turismo pela Champs-Elysées. Esperar, fazer o que!

Carrego tudo no meu carro e tento voltar para casa. Ônibus e caminhões saem em velocidade de suas exclusivas faixas e invadem as demais. Motos atravessam o caminho zigue-zagueando, buzinando, escapamentos adulterados. Todos alterados: gritam, xingam, brigam, sacam uma arma. Um rali de egos e desanteção. Falta de atenção e um lerdo reflexo. Reflexo de comportamento em que o seu umbigo vale mais do que uma vida.

Me sento ao balcão da cafeteria, o desrespeito senta ao lado. Curiosamente, o desrespeito vem dos dois lados do balcão, seja num serviço privado, ou público. Agressivamente, o "rei" faz o seu pedido, e o atendente reage como um "súdito" revoltado. Estressado por ter caminhado em estreitas calçadas, atravessado tumultuadas passarelas e chegando ao trabalho em transporte lotado. Muitas vezes num trabalho de uma relação: exploração x desinteresse (eu quero contra o eu preciso - conflito sem equilíbrio). O cliente atravessou a cidade por vias congestionadas com caminhões, ônibus, carros e motos disputando um campeonato de tempo e espaço.

O estressado cidadão, morador numa cidade sem um Plano Diretor, ou, talvez, com um Plano Diretor voltado aos interesses das construtoras, do setor imobiliário, do comércio local, mas nunca voltado a eficiência e qualidade de vida.
Altos prédios com seus minúsculos e desconfortáveis apartamentos deixam a tensão nas alturas. A cidade espremida.
Sem poder se expressar, nas comunidades os moradores esquecidos, nas calçadas os moradores invisíveis.
Inviável qualquer plano de resocialização. Não há uma efetiva ação, porque ninguém tem razão. Políticos, polícia, poder público, abandonados, drogados, crime organizado numa cidade desorganizada. Na mídia se faz muito barulho para nada.

O barulho invade a vida das pessoas na velocidade do som. Uma trilha sonora mal redigida muita mau regida. Sem harmonia.
Motos envenenadas, carros com em seu alto volume de um estilo musical piorado. Estes estilos musicais brega também acupam os restaurantes, não há diálogo porque o som se sobressai. 
Diálogos de narcisistas viraram um linguajar tosco, limitado e de baixo calão.

Ouve-se ainda o ruído de uma política que desmorona, em frangalhos. Uma polarização burra por uma admiração cega por um "mito" que surgiu de uma fé exagerada aprisionada em um ambiente intolerante, desigual e cruel. Onde deveria se pregar a vida, se doutrina a morte.
Morte da liberdade, morte dos ideiais, morte dos desiguais.

Neste tempo, vemos morrer a sabedoria e a inteligência. As telas brilhantes dos celulares estão apagando as mentes brilhantes. Não existe mais a ponte ao conhecimento, são dois lados que não se conectam. Um lado é um espelho que reflete uma imagem de vaidade e busca frenética por atenção. Do outro lado a incapacidade de discernir o certo - a ilusão - uma vida bem dotada de maravilhas.

A mentira virou uma verdade - virou um método. A verdade deve ser enxovalhada - contestada e ironizada.

A linha tênua que separa o ufanista e a síndrome de viralata. Esta separação nada constrói, apenas destrói. Um nacionalismo, ou ausência dele, que se afastam por não terem senso crítico.

Momento crítico: a ignorância (falta de inteligência) do brasileiro. Não importa se é aquele privado de oportunidade, ou aquele diplomado numa escola privada, muito bem empregado, bem remunerado, profissional prestigiado.

O verdadeiro saber vem da humildade. E esta, parece, anda muito em falta.



por Wagner Pires
uma crônica em Silêncio, O Culto 



domingo, 4 de maio de 2025

OBSERVATÓRIO: OBSERVANDO UMA RENCA DE OTÁRIOS

 

https://jrocheleau.blogspot.com/2015/01/originaux.html



O Brasil é, sem exagero, um país estranho.

Um grande público passou dias acampado em frente a um hotel na cidade do Rio de Janeiro, usando fraldas, rolando-se no chão, lamentando-se e chorando, enquanto comia - depois de sofrer com fome, sede e calor - esperando um simples acenar de sua diva que iria se apresentar ganhando milhões em cachê em dinheiro saído dos cofres público, a qual é abastecido, também, e não só, por estes mesmo público.

Outro grupo se tranca numa igreja para ouvir as "profetadas" de um mini coach gospel. Um estagiário de picareta. Uma criança arrogante e mal educada de apenas 14 anos de idade, que mistura um inglês sofrível, um português mal falado e idiomas imaginados e inventados em sua cabeca - como se fosse um emissário celestial com conexão via Wi-Fi com um deus inexistente vindo do além. O que ele e seus irresponsáveis pais querem mesmo é ganhar um bom vintém.

Há também os que vestem a camisa da seleção brasileira de futebol, a camisa canarinho, como se fosse um uniforme de guerra, marcham em avenidas pedindo a anistia para criminosos e, entre uma oração para pneus, chamados desesperadores para extraterrestres e uma aventura na parte externa frontal da cabine de um caminhão em plena rodovia, acreditam sinceramente estarem salvando a amada e idolatrada pátria. Porém, embarcaram numa modesta e furada catraia.

Até aqui, tudo normal - ou melhor, anormal, mas já quase habitual neste decadente país tão desigual.

Acontece que, pensando bem, esses grupos muitas vezes se sobrepõem. O fiel que chora diante do púlpito do charlatão orador é o mesmo que se ajoelha no quente asfalto clamando pela vida do golpista. O cidadão que defende teorias conspiratórios nas redes sociais, dignas de um roteiro hollywoodiano, é aquele que vê comunismo na cor vermelha da embalagem de ketchup - odeia a ideia da sua seleção, possivelmente, trocar o amarelo canário de sua camisa por um vermelho que simboliza as cores da árvore do pau brasil. São os mesmos que acreditam, com fé inabalável em qualquer: lorota, asneira ou fake news bem empacotada postada pela tia do zap.

Não para por aí.

Também tem os malucos diplomados que se vestem de terno. Homens feitos, bem instruídos, que choraram quando souberam que um jogador de futebol, multimilionário - já aposentado - voltaria ao Brasil para faturar mais uns bons milhões de reais apenas assistindo aos desfiles na Marquês da Sapucaí enquanto promete um conto de fadas com um final feliz, semelhante às comédias românticas da Disney, para o seu time de coração. E até mesmo o sonho para a sua seleção.

Crianças de oito, nove, dez anos com cabelos tingidos de vermelho, choram desesperadamente enquanto repetem o refrão de letras recheadas de apologia ao crime, às drogas, ao sexo, à misoginia. Mal sabem o que estão cantando estes tais MCs, Anitas e Pipokinhas. Mas sentem tudo na ainda ignorante alma. E isso, talvez, seja ainda mais perturbardor.

E claro, não poderíamos esquecer dos especialistas de ocasião: os que aprendem geopolítica com os memes e virologia com vídeos de WhatsApp. São doutores do ódio, bacharéis do achismo. Ora discutem pandemias e vacinas, ora a economia global, ora a Cosntituição Federal. Os especialistas da invasão da Ucrânia, da guerra no Oriente Médio, das tarifas alfandegária mundial - sempre com a certeza de quem não entende absolutamente nada e sentem orgulho da sua estupidez - sem um pingo de lucidez.

Por fim, restam os velhos rabugentos como eu.  Gente que, entre uma tarefa e outra, perde tempo observando este Brasil doente - e denunciando estas barbáries nas redes sociais.

Desistir de expor esta falta de cultura, ao que parece, seria a única e verdadeira loucura.


por Wagner Pires
uma crônica em Silêncio, O Culto

sábado, 26 de abril de 2025

RETRATOS DE UM BRASIL SEM TRATO

origem da imagem: https://br.pinterest.com/pin/37295503159521050/


Sexta-feira com uma chuva intensa, temperatura por volta dos 21ºC, 15 horas, chego ao banco e me dirijo aos caixas automáticos.
Todos os oito caixas estão ocupados e uma moça na fila à minha frente.
Enquanto aguardo, verifico uma moça conversando ao celular ao invés de realizar a sua transação bancária no terminal a qual está parada. Talvez estaria a conversar com alguém exatamente para realizar uma tal tarefa, ou simplemente ignorando a quem quer utilizar o sistema e é obrigado-nos a espera-la em sua vida particular.

Neste instante, duas senhorinhas, muito velhinhas, entram na agência bancária e se posicionam exatamente atrás de mim.
Um rapaz finaliza a operação e a moça à minha frente discretamente olha para mim, eu digo: "por favor moça, fique a vontade".

Foi quando, na agência bancária, entra uma senhora, com aparência humilde e de comportamente bem altivo, que aptresentava não ter nem 40 anos de idade, apesar que sugeria ter mais que isto devido seu aspecto cansado. Vestida com um longo vestido marrom de lycra, ou talvez de micro fibra, que marcava exageradamente as saliências desproporcionais do seu fino corpo. Um vestido com estampas grotescas e calçando chinelos tipo Havaianas®. Ao seu lado uma criança de uns 6 anos, aproximadamente, devido o seu falar, mas de uma pequena estatura. Alias, a mulher também apresentava uma baixa estatura.

Eis que esta senhora se encaminha diretamente aos caixas e eu chamo a sua atenção lhe mostrando a fila e orientando onde deveria se posicionar ao final e esperar a sua vez.
Isto foi o suficiente para que aos gritos me ofendesse e me ameaçasse, dizendo que eu não sabia com quem estava mexendo, que lá fora a conversa seria outra e tanto blá blá blá.
Eu digo: "minha senhora, para que este escândalo, estou apenas dizendo que tem que esperar a sua vez, respeitar as pessoas".

Não adiantava eu querer justificar, as palavras de baixo calão, as ofenças e as ameaças continuavam. Gritava que eu era chato por ser rico. Não sei de onde ela tirou esta definição, pois eu trajava uma calça jeans bem surrada, uma camiseta cinza básica, um tênis branco meio encardido devido a chuva e uma mochila de trabalho às costas. Nem aposentado sou, e ainda trabalho para seguir minha vida. E, nestes quase 65 anos de idade, com os cabelos já grisalhos, poderia me prevalecer da prioridade, mas mesmo assim me coloquei no final da fila quando cheguei para poder aguardar a minha vez. 

Um senhor, nos comenta1rios dirigidos à ela, até demonstrou dar razão à ela. Não entendi o porque, visto que não era gestante, nem com uma criança de colo, nem outro motivo aparente qualquer que a desse um direito de prioridade e, como eu disse, prioridade por prioridade, todos na fila teriam este direito: eu e as duas senhorinhas atrás de mim.

Uma outra moça ainda balbuciou algo, que eu não consegui entender, para que a mulher se calasse. Eu retruquei: "ela só vai se calar quando eu for embora". Ou não, vai saber quais foram os comentários após a minha saída.

Antes disso, já havia desocupado um dos caixas automáticos e eu sugeri que as duas senhorinhas utilizassem antes de mim.

Muitas coisas me incomodaram, não apenas a grosseria da mulher e a má educação que está passando para aquela criança, que durante os gritos, também resmungava algo, mas era impossível entender devido aos altos gritos. As ameças é que mais me chamou a atenção, não por medo, mas o que faz uma pessoa insinuar qualquer tipo de atentado?
Não sei onde ela mora, de onde vem, o que faz na vida, ou o que deixa de fazer, ou ainda o que não tem. E esta sua condição lhe da o direito de se achar superior a alguém?

O que temos visto, hoje em dia, é que a violência prevalece aos direitos. Tempos insano. Uma falta de respeito absurdo, sem lógica e sem sentido.

E como cobrar algo de uma sociedade doente, que ainda nesta semana pudemos ver nas redes sociais e nos sites de notícias um ex-presidente que, numa suposta enfermidade, desrespeitou uma profissional que estava apenas executando seu trabalho de oficial de justiça e, neste mesmo contexto e momento, desrespeitou um outro profissional que lhe estava assessorando clinicamente ou pessoalmente.

Eu sempre digo: todas as mazelas do Brasil é fruto da falta de educação. Educação que deveria vir das escolas, mas que na falta dela, desde a década de 60, foi formando famílias incapazes de dar educação familiar, formar bons cidadãos - bons cidadãos de verdade não estes que se auto intitulam cidadãos do bem, estes são hipócritas, cínicos e demagogos.

Com isto, não há mais respeito por nada e por ninguém. Vejo isso no dia a dia, em situações banais, como por exemplo, quando caminho numa estreita calçada onde caberiam 2 ou no máximo, bem apertado, 3 pessoas e no sentido contrário ao meu vem um casal que não soltam as apaixonadas mãos para que eu possa passar tranquilamente. Ou ainda, quando atravesso uma passarela, onde também caberiam no máximo 3 pessoas, e no sentido contrário vem 3 amigas, um tanto quanto avantajadas, e também não me permite passar, tendo que apertar-me às grades para poder seguir.
Não há respeito ao pedestre na faixa de pedestre, no banco reservado no transporte público, a prioridade nas filas dos supermercados. A música alta em qualquer lugar e a qualquer hora, as motos com escapamentos adulterados. O vizinho do andar de cima, ou na casa ao lado.

Estamos vivendo numa sociedade narcisista, ufanista. Egocêntricos, egoístas, arrogantes, soberbos e prepotentes; e na mairoria das vezes se escondem-se atrás de uma religião e de um deus (nunca vi um criminoso ateu ou agnóstico, muito pelo contrário, são bem fanáticos religiosos), ou querem prevalecer-se de um poder: financeiro, político, profissional ou criminal.

Se o Brasil fosse decente, não estaria descente.



Wagner Pires
in, Silêncio, O Culto

sexta-feira, 4 de abril de 2025

A INVASÃO BRITÂNICA: Música, Memória, Revolução, Evolução

https://www.unijui.edu.br/unijui-fm/noticias/20824-novidade-no-ar-acompanhe-neste-sabado-o-primeiro-episodio-do-programa-invasao-britanica


INTRODUÇÃO

Não é apenas lamento e histórias de um sexagenário, são recordações de uma experiência única, verdadeira.

Nos anos 80 pudemos presenciar a segunda invasão britânica na música.

Musicalmente foi uma década fantástica (também foi no cinema) que traz influências até aos dias de hoje: estilos, ritmos, a tecnologia e a técnica. A capacidade e criatividade de músicos,  compositores e produtores. A qualidade e performance de diversos artistas nos palcos e nas telas atingiram um nível notável, extraordinário, inesquecível.



ANOS 80 NA AMÉRICA

Ainda durante esta invasão pudemos presenciar o surgimento do Hip-Hop americano, o Rap, o Break e o Hardcore californiano. O pop americano aperfeiçoado com a mistura do jazz, blues, rhythm & blues.
Tanto as bandas americanas como as britânicas, trouxeram influência para formação das bandas brasileira na época.

Vale lembrar que os anos 80 marcaram o surgimento da dance music. Ela nasceu na metade dos anos 70, emergindo dos guetos com o funk e ganhando o glamour com o sucesso nos cinemas de Saturday Night Fever e levado às discotecas nova iorquinas.

Seu auge foi no badalado e polêmico Studio 54 (famosos hollywoodianos, sexo, álcool, drogas e dance music), que fez expandir sua característica, arquitetura, decoração, luzes por casas noturnas no mundo afora.



A QUASE EXTINÇÃO

Na música do final dos anos 70 foi marcado pelo "conflito" sócio racial - conhecido como "the day disco died".

Mais exatamente no ano de 1979, um evento organizado no estádio Comiskey Park, em Chicago. Onde o ingresso era um disco (na época eram discos em vinil) para que fosse explodido no centro do estádio.

Era uma revolta da comunidade do rock (predominância branca) contra a dominância da música Disco que invadira as rádios e as pistas de dança. A questão era que a música Disco era fortemente ligada às comunidades negras, latinas e LGBTQ+.

As bancas tiveram que se reinventar, procurar solução para que as gravadoras pudessem continuar a produzirem o estilo dançante e as rádios voltassem a toca-las.

A disco saiu do mainstream, mas não morreu verdadeiramente. Um exemplo é o produtor Nile Rodgers, das bandas Chic e Sisters Ledge e da cantora Diana Ross. Criou uma nova roupagem para os arranjos e acordes para que continuasse a ser aceito em gravadoras e rádios e alcança-se diversos públicos, mais eclético e exigente.

Mudanças que veremos a seguir.



DANCE MUSIC E RAÍZES

A dance music trazia uma fusão rica, com mistura do soul e do blues, influencias do jazz, o swing do R&B, a percurssão afro/brasileira, a conga latina, os corais gospel, ganhou o
s primeiros samples digitais com Grandmaster Flash e Afrika Bambaataa. Influências da alemã Kraftwerk e do DJ e produtor italiano Giorgio Moroder.
Mesmo que tenha ofusvcado os sucessos da talentosa Donna Summer e a banda Chic, que apesar de uma pequena pausa, continuaram a gravar - apesar de não ter o mesmo sucesso da sua porigem.

A dance music manteve Diana Ross em seu auge, assim como o irreverente James Brown com o Funk original. Outro que conseguiu se adaptar rapidamente foi Rick James.

Trilhas sonoras que agitavam as pistas de dança.



ENTRE O POP E O ROCK: O SWING BLACK

Quincy Jones, o maestro e gênio por traz do sucesso de Michael Jackson. O completíssimo Prince: cantor, compositor, guitarrista, baterista, ator, dançarino, produtor, uma figura característica e marcante. E sua rivalidade com o próprio Michael Jackson pela conquista do topo.
O swing romântico de Lionel Richie, cantor, compositor e produtor que encantava nas baladas.
Lionel Richie e Michael Jackson buscaram apoio de Stevie Wonder para realizarem um ícone da música mundial. Reuniram várias estrelas do planeta: cantores de estilos diferenciados, de lugares distintos e criaram um momento épicopara a música mundial para ajudar uma causa social, acabar coma fome na Áfria - We Are The World, produzido por Quincy Jones.
Esta produção foi inspirada num marco clássico natalino com peso político/social, no ano de 1984 - Band Aid - Do They Know It's Christmas? - originário do Live Aid, Projeto formado por cantores britânicos, aqueles que viriam a ser chamados da 2ª Invasão Britânica na Música; com o intuito de arrecadar dinheiro para combater a fome na Etiópia. Apresentando uma letra forte e direta sobre a desigualdade mundial e a crise humanitária.
Ou seja, um projeto Britânico e, também um sucesso mundial, inspirou cantores americanos a realizarem um segundo projeto em benefício âs necessidades do continente africano. 

Falei da briga pelo reinado entre Prince e Michael, mas não posso deixar de mencionar a sempre polêmica Madonna, diversos anos no topo das principais revistas e playlists das rádios mundiais. Whitney Houston, Anita Baker e Chaka Khan foram outras que se destaracam na década.

Como banda posso destacar Earth, Wind & Fire, e seu lider Maurice White, que apesar de terem surgido nos anos 70, seu sucesso foi consolidado nos anos 80. Roger Troutman foi um visionário, vocalista da banda Zapp com seu estilo Funk Eletrônico com um vocal singular, mestre na utilização do recurso talk box (precursor do auto tune). Posso enumerar outras bandas que se destacaram: SOS Band, The One Way, Shalamar, Kool And Gang, The Gap Band ajudaram a consolidar este som dançante que dominava as pistas. 

A guitarra inconfundível de Nile Rodgers, produtor da banda Chic, Sisters Ledge entre outras. As batidas do pop rock de Daryl Hall & John Oates, o retorno triunfal de Tina Turner, o estilo nacionalista de Bruce Springteen, o jeito suave de Billy Joel, o estilo latino de Glória Estefan e Miami Sound Machine. A fusão do jazz, soul com o pop de George Benson. O afinadíssimo Phillip Bailey com seu falsete puro, limpo, cheio de emoção e vida que, apesar de pertencer à banda Earth, Wind & Fire, fez sucesso em carreira solo.

Se fosse falar ainda mais da música norte americana dos anos 80, deveriam ser capítulos a parte de livro devido a sua imensa variedade de estilos e ritmos, a grande quantidade de artistas.

Porém, o destaque veio da Europa.



SEGUNDA INVASÃO BRITÂNICA - Entre Synths e Sonhos Um Impacto Cultural

A partir dos anos 70 a rádio dava lugar à televisão, e a MTV foi o catalisador do sucesso que viria a ser considerada a Segunda Invasão Britânica (a primeira foi nos anos 60 com os Beatles, Rolling Stones e The Who).

Visto que as bandas inglesas já estavam acostumadas a produzirem videos clipes explorando todo visual de roupas, cabelos, maquiagem e cenário, a MTV aproveitou para impulsionar sua programação voltada às estas produções - mesmo com todo know how hollywoodiano, os americanos ainda engatinhavam na produção de videos clipes. Portanto, a América foi invadida por estes  sucessos que rapidamente conquistou não só os americanos como todo o mundo.

Os britânicos com seus cabelos estilosos e roupas coloridas, em cenários exóticos detalhadamente pensado e escolhidos para cantarem seus estilos que iam do rock, pop rock, pós punk, new wave e synthpop.

Um dos mais famosos foi a banda Whan! com seu estilo pop chiclete tendo no vocal o cobiçado George Michael, com músicas de letras simples que facilmente ficavam em nossas mentes. Ouvir George Michael e perceber o colorido das cores primárias bem vivas, característica destes anos 80.

Outro que alcançou rapidamente o público foi a irreverência do pop, soul e reggae do visual andrógino de Boy George do Culture Club em suas músicas suavemente dançantes e baladas apaixonantes. Maquiagem marcante, suas tranças extravagantes, uma suave que viajava do dançante como Karma Chameleon ao romantismo de Mistake Number 3.

Da velha guarda, vindas dos anos 70, tivemos a afirmação do sucesso com o carisma e capacidade vocal de Fred Mercury à frente do Queen, em parceria com o grande guitarrista Brian May. Difícil escolher a melhor, ou maior de todas as músicas de que o Queen passaram do rock clássico ao pop global. Talves Radio Ga Ga? Eu curtia o baixo pesado de Another One Bites The Dust. 

A explosão da banda irlandesa U2 em suas letras ácidas politizadas mescladas ao som do pós punk e sua mensagem social. 
Lembrar de U2 é recordar de um dos seus maiores sucesso: Sunday Bloody Sunday cantado ao vivo no Red Rock Amphitheatre, no Colorado, EUA. A partir daí é história de sucesso que todos já conhecem.

Vimos a continuidade do sucesso desde os anos 60 da banda de rock Rolling Stones. Que, assim como o Queen, mesclava faixas de rock clássico, pop rock, aventurando-se em algumas românticas e outras dançantes.

E, porque não dizer, da também continuidade de sucesso de David Bowie em suas constantes reinvenções. Não à toa era considerado o Camaleão do Rock, pois a cada década ele se adaptava com sua capacidade criativa. Marcante foi a sua parceria com o Queen na música Under Pressure. E o romantismo na trilha sonora do filme Labirinto - filme que também atuou como coadjuvante.

Quem também se reinventou nos anos 80 foi a banda Genesis. Do rock progressivo do final dos anos 60, para o pop progressivo. Agora comandada pelos vocais e bateria de Phill Collins, trazendo sofisticação em suas criações.
Phill Collins que depois partiria para a carreira solo, assim como Peter Gabriel e Mike Rutherford. Baterista de primeiríssima trouxe uma som sombrio em Mama - uma imagem quase perturbadora. Depois disso a banda embarcou definitivamente no pop.

Outro das antigas que fez sucesso no início dos anos 80 foi o produtor Alan Parsons em parceria com Eric Wolfson - Alan Parsons And Project com Eye In The Sky. Que praticamente ficou só nisso, pelo menos no lado debaixo do Atlântico.
Mas também vimos o fim da banda de Birmingham, Eletric Light Orchestra, com destaque para Last Train To London. Um rock clássico tocado como se fosse uma ópera sideral. Visionários, inovadores, prometiam muito mais, mas acabaram de disolvendo.

Vimos o brilhantismo do pop melancólico do Tears For Fear. Que explorava melancolia com profundidade. Eu fazia uma mixagem ao vivo tocando simultaneamente Evebody Wants To Rule The World em duas pick ups Technics. Voltando para trechos instrumental, ecos nos vocais, coisas que uma controladora de hoje em dia faz apertando apenas um botão.

O som eletrônico com influências do soul do Eurythmics. O synthpop de New Order e Depeche Mode com seus estilos dark soul. Ambos moldaram a música eletrônica de hoje. Assim como Pet Shop Boys, outra lenda do synthpop, que traz uma critica social inteligente e elegante. Ainda hoje não me canso de ouvir Enjoy The Silence: versão original, ao vivo, remixada.....

The Police, chefiado pelo alquimista Sting, o coração poético e melódico da banda, que trouxe energia do punk ao pop jazz. Misturavam romantismo com política, obsessão e filosofia.

Tivemos o sarcástico poeticamente melancólico do estilo da banda The Smiths. Ouvir The Smiths me fazia imaginar andando pelos becos da chuvosa Londres entre seus prédios de tijolos até chegar à um pub emoldurado por chacecóis do Chelsea, Arsenal, Liverpool, Manchester, e debruçar-me numa caneca de cerveja enquanto atirava dardos na parede.

Ninguém soube explorar tão bem as telas de TV como os Duran Duran, mas não só visual, arranjos de qualidade, sempre muito bem produzidos. Os príncipes que exibiam toda  elegância em suas músicas que apresentavam o estilo new romantic no synthpop, pós punk e o rock dançante, apresentavam uma caracteristica futurista e fashion.

Por falar em Duran Duran, que trouxeram o estilo New Wave nas músicas, danças, cabelos e roupas, temos também os Thompson Twins e Talk Talk, que surgiram no synthpop, mas foram navegando em direção ao New Wave lúdico e teatral.

No synthpop mais cru, mais sujo, minimalista, temos a banda Soft Cell.

The Cure e The Cult, ambas com pegada dark intensa cheia de estilo. The Cure apresenta um romantismo sombrio, enquanto The Cult a mística do rock 'n roll.

Para finalizar, talvez, quem traz um estilo que nos faz imaginar caminhando pelas neblinas tipicamente britânica é Echo & The Bunnymen com seu estilo de rock alternativo e pós punk.

Enfim, muita música boa, de qualidade. Pode-se abrir o youtube e deixar tocar, uma após a outra, e poder levar a mente a lugares e tempo distintos. Do colorido ao tom de cinza. De luzes embalando as pistas dança, ou a neblina de um outono qualquer nos anos 80. Ou, porque não em palcos de estádios lotados, sem celulares, sem redes sociais, nada que pudesse roubar a atenção e deixar apenas a voz desafinada acompanhar o coro da multidão.



EU E A MÚSICA

Viajar pelo tempo e viajar pelo mundo. É isto que me traz os anos 80. Através dos meus sonhos acordado. À noite, deitado em meu quarto numa eterna viagem em busca dos meus propósitos - independente da idade. Talvez degustando uma taça de vinho embalado por esta trilha sonora.
Viajar conduzindo pela estrada numa madrugada qualquer em direção a um lugar qualquer sem destino definido. Sem pressa de chegar, sem pressa de partir.
Não sou daqueles que ficam com seus ouvidos cativos no Flashback: "ah, no meu tempo....." Muito pelo contrário. Sou eclético, mas quando se trata de Dance Music eu prefiro ser atual, acompanhar as novas tendências: o techno, house, deep, trance.....apesar que isto, às vezes, me faz lamentar, me frustrar pelos caminhos que escolhi seguir.

Comecei como DJ no início dos anos 80, tinha a minha "equipe de som" e os bailinhos nas casas. Era sonhador e ambicioso, praticamente um adolescente de 19 anos que conseguiu o objetivo: ser DJ numa das maiores casas noturnas de São Paulo, consequentemente do Brasil. Vivi intensamente estes anos 80. Surgi ao mesmo tempo que estes estilos e bandas se destacaram. Todos os dias que ouço estas bandas percebo que ainda estão atuais, não trazem aquela sensação de música antiga, ultrapassada, cansada, cheirando a mofo. Traz modernidade, conceitos ainda atuais. Tanto que muitos artistas de hoje usam samples e influências em suas produções de hoje em dia. Algumas são regravadas, reproduzidas, remixadas, mashup, bootleg. São a base da programação de algumas rádios alternativas, que fogem da corrida pela audiência, preocupam-se apenas em agradar, tanto aos mais velhos como a um público mais jovem inteligente e exigente em qualidade.



ESPERANÇA

As rádios dos anos 60 explodiu com a primeira invasão inglesa , como eu disse, que trouxeram Beatles, Rolling Stones, The Who e Cia. Os clipes na TV dos anos 80 mostraram ao mundo as bandas Queen, U2, George Michael e tantos outros.

Quarenta anos se passaram e nesta era digital ainda não tivemos a "Terceira Invasão Britânica" - que nada mais seria do que o desejo de se ter algo com criatividade e qualidade que dominasse o mundo musical e cultural transformando uma sociedade apressada e imediatista.

Nos Spotify's do COTIDIANO somos fadados à monotonia, mesmice, mediocridade instrumental e de letras pobres em apologia à banalidade e futilidade.
Shows e videos com visual e coreografias apelativas. Pregam a liberdade vivendo presos em seus pobres e limitados conceitos - preferem imitar a criar.

As músicas e artistas de hoje aparecem do nada e somem do nada. Sem identidade. Assim como a rapidez nos cliques nas redes sociais. Os interesses de hoje podem mudar de uma noite para o dia num rolar do feed. O que viraliza hoje, estará velho e esquecido amanhã. O que engaja hoje, poderá ser cancelado amanhã.

Por fim, vamos ouvindo Coldplay, Adele, Sam Smith, Billie Ailish, Tyler The Creator e poucos outros com esta qualidade.....aguardemos!



por Wagner Pires
in Silêncio, O Culto

domingo, 23 de março de 2025

I DON'T LIKE DANCE

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Wake up
Dance with me
Let's go
I'm your angel
Eternal friend

Feel the beat
Dance whit me
Let's go
I'm your nightmare
Hate me

Be free
Dance with me
Let's go
I'm your cure
Bitter medicine

You are trapped
Dance with me
Let's go
I'm your final destination
Don't fight

Shut up
I don't like dance
Go away
I live my dreams
Even if it's slow

I sense your presence
I don't like dance
Go away
I only have this live
I don't need new loves

Your false destination
I don't like dance
Go away
I have many tasks to do
I get upo and lie out

Seductive conversation
I don't like dance
Go away
In the exact moment, I'll turn off the light and close the door
I will meet old acquaintances



por Wagner Pires
in, Silêncio, O Culto

FORA O ESTEIRO, SOU UM FORASTEIRO

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No quintal da minha casa, eu ouço o cacarejar e, todo sorridente, Barry começa a me rodear, pensa estar na hora de irmos à praia.
É cedo, ainda vou apanhar os ovos, preparar o pequeno almoço, sem pressa, apreciando o silêncio da natureza.
Aliás, vou quebrar este silêncio sintonizando e aumentando o volume dos acordes dedilhados nas cordas no "Apreciar o Silêncio".
Sou um eterno eclético apreciador de música, faz-me viajar pelo universo, pelo tempo, pela minha mente. Traz lembranças e saudades. Alegria e tristeza. Motiva-me, desperta-me, conforta-me e, às vezes, é minha melatonina.

Deixo que a aleatoriedade do Youtube escolha a trilha sonora deste dia, enquanto me organizo.

Manhã, e o calor extremamente quente e ensolarado, sugestivo para um mergulho, pegar umas ondas. É só carregar minha kombi corujinha azul calcinha e sua encardida faixa branca, fabricada lá no final dos anos 60, originalzona, e fazer a alegria do Barry. Assim, pelo menos, ele deixe o Spielberg em paz deitado sobre o tapete, apenas abanando seu peludo rabo. Chico está no puleiro, quieto, nem um piu, talvez esteja concentrado nas músicas que estão indo dos anos 70 e 80, auge da era Disco.

Meu rosto traz a barba por fazer, e faz tempo, mas e a preguiça?
Deixa como está.
O cabelo também pede um trato, um corte, mas o dinheiro anda escasso.
Talvez, à noite, possa fazer algum dinheiro na praça da cidade, o feriado se aproxima e os turistas possam comprar alguns dos meus artesanatos, ou dos quadros mal pintados, em textos mal redigidos.

- Vamos Barry, só vou vestir uma bermuda e enrolar um "cigarro de artista" para irmos embora.

Uma garrafinha de água para hidratar, a prancha, as cansadas pernas arrastando um chinelinho tão fininho que sente a quente e delicada areia da praia.

O Jão montou cedo a sua barraca. Trabalhador, gente boa. Empreendedor.

- Fala, Jão, de boa? Fez aqueles lanchinhos naturais para a gente, hoje? Trouxe, também, os brisadeiros para adoçar nosso paladar?
Ai sim, cara, boas vendas! Daqui a pouco eu chego no pedaço. Vou levar o Barry para dar uma refrescada, vou pegar umas ondas.

Com as poucas forças dos meus braços, começo a remar debruçado em minha tábua. Vou viajando por sobre as águas, rompendo a violência das ondas que vem da imensidão deste oceano. Sob as nuvens, poderia querer alcançar este distante horizonte onde o sol encontra o mar; deixando para traz a incontável quantidade de grãos da pálida areia.

Nem o frescor da possível chuva seria suficiente para refrescar a intensidade do calor que bate em minha cabeça.
Avisto cardumes que, se ao pescá-los, seria capaz de alimentar meu debilitado corpo. Misturados ao que é por mim plantado na humilde horta.
Gostaria de estender esta viagem adormecido sobre meu pranchão. Dormir debaixo do luar, ao relento, que seria suficiente para não sentir saudade do raso colchão, do fino lençol, da janela entreaberta. Do barulho dos insetos na madrugada, do quebrar das ondas nas rochas.
Uma dúvida é se eu poderia trocar a escuridão do silêncio das marés pela musicalidade Do meu dia-a-dia. O despertar do galo, o latido companheiro do Barry, o miado dengoso do Spielberg, o tagarelar do grasnado do Chico, em suas cores patrióticas.

Tudo não passa de um sonho vulgar. Portanto, volto-me à realidade e, sendo assim, continuo a escrever as Crônicas de Um Andarilho como um Roteiro de Uma Rotina neste Silêncio, O Culto.
E, como um artesão, manuseio as palavras como matéria prima para finalizar uma peça, uma inútil peça teatral do meu COTIDIANO.



por Wagner Pires
in, Roteiros de Uma Rotina











segunda-feira, 3 de março de 2025

VINHO DESBOTADO COMO VINAGRE VELHO

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O sol em minha janela atravessava o escuro tecido amarrotado
Procuro tentar descansar depois da madrugada acordado
Meu dia será longo e cansativo
Mesmo eu ainda pensativo
Agarro uma caixinha de um achocolatado como se fosse um pinguço
Na cama, esparramo-me de bruços
O sono não demorou a chegar
Como no recente COTIDIANO, o estress me traz pesadelos e a sonhar

Não desperte destes seus sonhos
Desfrute e deguste deste sabor azedo
Carregarei em meus braços neste momento angustiante
Por fim, das alturas, te soltarei e verás tudo do alto

Os impulsos nervosos reagem
Intensa luta, rolando-se ao chão, sem ar, uma penumbra ausente de paisagem
Deste despertar desesperador não saiu uma única palavra
O vinagre escorria pelas minhas entranhas feito uma maldita larva
Ainda aflito e atormentado, de relance pela luz vejo sua fuga em disparada
Traiçoeira, oportunista pelo corpo fragilizado se sentiu amparada
Sei que meu relógio marca apenas a hora do trabalho
E nesta vida estou num jogo de cartas de baralho



by Wagner Pires
in, Roteiros de Uma Rotina

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

RELIGIÃO - O MAL QUE EU TEMO

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O que é a religião senão fábulas, lendas e mitos criadas do perverso imaginário do homem para reprimir a sua existência.


A religião é um cabresto que impede que as pessoas tenham uma visão de si mesma e do mundo, para que não caminhem segundo suas próprias vontades.


A religião inibe a consciência, a sabedoria e a inteligência das pessoas para que não tomem as suas próprias decisões e estejam sempre consultando a vontade de um deus como crianças ingênuas e indefesas


O objetivo da religião é controlar: o pensamento, o falar, discutir e, principalmente, não discordar. Discordar é condenar-te ao inferno.


Com uma falsa ideia de viver em paz, inventaram deuses e suas religiões. Prometem um paraíso e ameaçam com um inferno. Porém, as religiões causam guerras, mortes, destruição e divisões - o próprio inferno.


O clérigo, de toda e qualquer religião, nasceu e se estabeleceu à sombra de líderes: imperadores, reis e governantes. Escondem-se nas sombras dos poderosos para encobrirem os seus malignos pecados.


A principal intensão do líder religioso é enganar para controlar e lucrar e continuar no poder.


Não há nada tão arcaico e primitivo como liturgias em cultos a deuses que se praticam oferendas em busca de paz, prosperidade e solução de problemas. Usos de vestimentas carnavalescas. Tudo para justificar uma fé.






por Wagner Pires
in, Silêncio, O Culto

domingo, 10 de novembro de 2024

O BOM DO BRASIL É QUE NÃO TEM GUERRA

         
incêndio no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, 2018



          Interesses pelo poder e dinheiro, para conquistar terras, dominar territórios e explorar a comunidade. Corrupção: corrupto e corruptor - subjulgar.

         Tráfico de armas, de drogas, agiotagem, lavagem de dinheiro, prostituição. Milícias e o crime organizado. O Estado em guerra.

          Assassinatos. Mortes sem precedentes, mortes sem verificarem os antecedentes. Tiros dos dois lados: sem saber se o bandido é mocinho, se o mocinho é também um bandido.

         Crimes à luz do dia, à luz das câmeras. Expostos nos noticiários, mas ninguém mais fica abalado, virou uma rotina. Crimes encobertos porque pagaram propina. Terra sem lei, ou melhor, leis que não são cumpridas.

         Bandido se elege. Eleito que vira bandido. Eleito patrocinado por bandido. Bandido que mesmo inelegível arrasta apoiadores adoradores. Exaltado como um deus. Este é um dos problemas: a fé.

         A comunicação da guerra passa pelos altares, pelos púlpitos, pelos plenários, inflando a mente doente de uma população de cultura carente. A guerra destrói a história do seu povo.

         A falta de cultura vem desde lá de trás. Desde o descobrimento? Desde a implantação da República? Desde os anos 50, 60, 70, e vem piorando com a geração Millenium, X, Y, sei lá mais o que!

         Nesta guerra não há cultura porque não há educação. Sem conhecimento, sem sabedoria, sem entendimento, sem atitude, sem vontade de mudança. Apostasia.

         Aliás, durante a guerra não há luz, água, esgoto, transporte, segurança pública, boa moradia, boa qualidade de vida.

         Na guerra, os hospitais estão lotados: sem atendimento, sem agenda, sem qualidade.

         Caos, destruição, lixo, sujeira, doenças, endemias, epidemias.

         Inflação, desemprego, sub-emprego. exploração.

         Não tem lazer, não tem viagem, não tem descanso, só enfado e cansaço - estress.

         Não tem dinheiro, não tem comida, não tem paz - ilusão.

         A esperança é na inútil fé na religião, no inútil mito, herói, ídolo, bandido.

         Na guerra impera o nacionalismo, patriotismo, o ufanismo exacerbado.

         Idealizada e comandada pelos poderosos, lutada pelos mais desprovidos.

         Numa vida de lutas, lutam apenas para sobreviver.




por Wagner Pires
in, Silêncio, O Culto

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

O MENINO DO QUARTO VAZIO - UM CONTO



- Luisinho, vai ao mercadinho comprar umas coisas para a mãe!

- Ah, mãe, tem que ser eu? Sempre eu?

Lá vem um caminhão, eu vou correr mais rápido do que ele, eu sou muito rápido. Vamos ver quem chega à esquina primeiro.
Ufa, hoje eu quase ganhei.
Por falar em ganhar, vou furar naquele jogo para ver se desta vez cai uma bolinha colorida, eu nunca ganhei um prêmio.

Não queria ir à escola hoje, não gosto de lá, os meninos ficam rindo de mim só porque sou pequenininho e tímido.
A professora nem liga, aliás, outro dia até ela riu de mim. Só porque eu fiquei nervoso por estar envergonhado.
E ainda chamou minha mãe na diretoria, disse que eu precisava de um tratamento médico.
Eu não ligo, fico quietinho, assim eu vou aprendendo, gosto muito de fazer contas, escrever histórias e conhecer histórias do mundo, também. Gosto de conhecer o mundo pelo atlas, ver jornais e revistas. E gosto de desenhar.

Está chegando o mês de junho, será que eu vou poder dançar quadrilha na festa junina com a Mara? Ela é muito linda.
No ano passado eu queria ter ficado com a Kátia, mas ela nem quis. Vou falar com o Cabeção, ele é meu amigo.

Lá vem aquele meu tio chato, só compra doces para meu irmão e meu primo. Ele tem um cheiro ruim, um cheiro de pinga. Igual ao bafo do meu pai quando briga com a minha mãe, cheiro de cerveja. Nestes dias ele quebra tudo em casa.
Outro dia eu o ajudei, comecei a chorar e gritar pela minha mãe quando ele estava com a boca no fogão, já estava quase desmaiando, pálido.
Minha mãe deu uma dura nele e contou tudo para a minha avó.

No final de semana eu, meu irmão e meus primos vamos jogar bola na rua de novo, não vejo a hora de podermos disputar com os meninos da outra rua. Nosso time é muito bom, eu sou o mais velho, sou o capitão, o artilheiro.
Mas eles ficam bravos comigo porque eu gosto de driblar todos e fazer muita graça com a bola.
Meu outro amigo, o Sérgio, é nosso goleiro. Claro, é o maior de todos. Ninguém faz gol nele.
No campeonato da escola, eu fui o último a ser escolhido, só por causa do meu porte: baixinho, magricela, e no jogo se surpreenderam, ninguém passava por mim, e ainda fiz o gol da vitória. Ganhamos do time que era considerado o melhor da sala. Passamos para a próxima fase.

Já não somos mais as crianças do primário, estamos em nova escola. O aluno mais popular é o Goiaba, e como eu sou o menor de todos, ele diz que eu sou o seu filho, o Goiabinha.
Como ele conhece muitas meninas, elas também são minhas amigas. Na aula de educação física a gente estava correndo pela quadra, uma delas falou que eu sou uma gracinha.

Com os amigos da rua, continuamos nas partidas de futebol, não gostamos de ficar empinando pipa.
Gostamos de jogar futebol de botão.
Eu organizo um campeonato só meu. Vou para o quarto de bagunça, ligo a vitrola Delta, azul calcinha, na rário Excelcior AM e fico ouvindo músicas de discoteca enquanto jogo as partidas de botão.
Quando canso de jogar botão eu vou desenhar personagens de quadrinhos, tem vários desenhos, encheu uma parede inteira de ponta a ponta, de cima a baixo. Minha mãe fica orgulhosa com meu talento para desenhar. Minha irmã pega meus desenhos para colorir.
Eu não gosto, prefiro que fique apenas nos rabiscos, em preto e brando.
Meu mundo em preto e branco.

Futebol, desenhar, ouvir música, as coisas que eu mais gosto.
Apesar que tem uma outra paixão, automobilismo, todos os domingos pela manhã fico esperando começar a Fórmula 1. Quero crescer e comprar o meu carro, conheço todas as marcas e modelos. Quando junto umas moedas do troco das compras que eu faço para a minha mãe, eu compro a revista Quatro Rodas só para ver os carros.

Este mês terá o Salão do Automóvel, vou sair sozinho pela primeira vez com um amigo, o Alexandre, mora lá no bairro ao lado do meu.
Vamos a tarde e só voltaremos na hora de fechar.

Gostei da ideia de sair a noite com amigos, passear, conhecer lugares e pessoas, quem sabe eu arrumo uma namorada.
Vou com minha irmã na discoteca, como eu amo música, tenho certeza que vou me divertir.

Uma pena, não me diverti. Esta minha timidez me bloqueia, não consegui dançar, nem conhecer ninguém, fiquei como um bobão sentado no sofá só ouvindo as músicas.
Bom, pelo menos isto eu pude curtir: todas as músicas. Algumas que eu nunca tinha escutado na rádio.
Achei sensacional o jogo de luzes sincronizado com as músicas.
Uma que me marcou foi Prince - I Wanna Be Your Lover, que louco quando chega no drop e fica apenas o instrumental e a iluminação sob pista e a estrela do teto no mesmo ritmo.
Isto me fez viajar, sonhar, querer ser um DJ.

A multidão lá em baixo, na pista de dança, quase 2 mil pessoas olhando para mim na cabine de som comandando a festa, fazendo virada nos tocas discos, brincando com o microfone, agitando a galera, foi a cura para minha timidez.
Conhecer garotas, ser conhecido, ter amigos, ser admirado, respeitado, era tudo o que eu sempre quis.

Ser DJ numa das maiores casas noturnas do Brasil, poder produzir um programa semanal na segunda maior emissora em audiência de rádio era a realização do sonho.
Mas a maldita timidez interferiria mais uma vez, impedindo de poder crescer no meio musical, um bom relacionamento profissional, ter contatos, ser audacioso, poder arriscar.
Mesmo sendo considerado um dos melhores, tanto nas mixagens ao vivo, as viradas, quanto na produção em estúdio: os bootlegs, os mashups; cortes feitos em fitas de rolo. Usava a criatividade, a imaginação.  Aquela mesma de criança quando rabiscava os personagens tirados dos quadrinhos e dos álbuns de figurinhas.

Sonhos que faziam transportar-me em alma para outros continentes, levaram-me a atravessar o oceano em corpo, certo de que seria um caminho sem volta. E realmente foi, pelo menos em emoção e sentimento, lembrancas e saudade.
Uma ida que não deveria ter tido a vinda. Mas enfim, erros cometidos pela emoção do calor do momento.
Não foram erros de rabiscos em grafite que puderam ser apagados com uma simples borracha. Ou, talvez, erros na montagem nos acordes, cujo corte com uma gilete e uma fita adesiva  resolveria tudo.
Insegurança, medo, temor: precepitação.
Receio e preocupação.

Tempos em que mais uma vez pude praticar a criatividade. Desta vez com os temperos, o calor da grelha e do fogão. A calda, o ganache, a fruta sendo transformada no coulis para adoçar o paladar.
Conquistando a admiracão e respeito daqueles que provaram. Provaram o doce, o salgado e o caráter.
Minha personalidade temperada com exigência de perfeição, salgada com críticas e doce de coração. Tudo equilibrado na temperatura adequada pelo momento.

Ah, quem dera eu ter escutado meu lado mais ousado com aquela coragem de viver independente de tudo e todos, e não ter me acovardado na timidez e pequenez de misericórdia.

Paredes que se ergueram.
Portas que se fecharam pelo lado de dentro.
Lugares abafados, sem janelas.
Escuridão e silêncio.
Lá dentro sem forças e capacidade para abrir.
Terror, tremor e temor.

Instabilidade emocional na mesma e velha capacidade intelectual criativa.
Sonhar e planejar.
Querer conquistar e transformar este mundo doente.
Egoísmo e egocentrismo, traições e covardia.
Banalizaram o normal, sem moral.
Desconfiança.

Transformando-me no senhor das minhas impacientes opiniões.
Inegociável e crítico.
Assumi o silêncio indiferente na minha ausência.
O eu dentro de mim mesmo, minhas ideias e meus ideais.
Não aceitando a injustiça pessoal e social.
Porém, sem forças e capacidade para mudar o que está ao redor,
Fico ao som de melodias e busco em minha criativa memória,
Lembranças para escrever contos e histórias
Trancado num quarto vazio.


por Wagner Pires,
em, Roteiros de Uma Rotina.