domingo, 2 de agosto de 2026

NOTAS EM UM PIANO

imagem: https://br.pinterest.com/pin/486107353543208773/



     Mais uma manhã. Manhã de um dia de domingo do mês de agosto que se inicia, um mês especial. Um sol brilhante e não tão quente, gostoso, por ser um sol de inverno.
     Quase como se fosse uma rotina, pego minha cadeira e sento-me solitário no jardim. Meus filhos ainda dormem no quarto com a janela voltada para este jardim.

     Em minhas mãos uma xícara de chá de maçã com canela. Um hábito, gosto de despertar e tomar uma xícara de chá. Não sei diferenciar de qual seria o meu favorito, aprecio diversos sabores: camomila, erva doce, hortelã, capim-cidreira, mate..... Enfim, variedade de gosto.
     Hoje eu dispensei uma torrada integral com queijo branco e geleia de frutas silvestres, acordei sem fome. Estas sim são a minha paixão: morango, amora, framboesa, mirtilo. As saboreio naturalmente ou em qualquer receita que as tenham como ingrediente: cheesecake, milk shakes, geleias. Receitas que crio ou que procuro copiar de alguma página na internet.

     Ao fundo, um piano sustenta notas longas e distantes, como trilha sonora de um papel de parede com paisagens serenas que desfilam pela tela da minha TV: castelos, um farol, ondas que terminam numa praia, moinhos que giram com a força do ventos - sons e imagens que contrastam com a tristeza COTIDIANA no meu dia a dia.

     O silêncio da música e do cantarolar de alguns passarinhos é quebrado pelo decolar de um pequeno avião que passa sobre a minha cabeça e o estalar da gordura queimando na panela da vizinha, que faz subir o cheiro do refogado da cebola e do alho por sobre o muro que nos separa. Uma senhora já com seus oitenta anos, acorda todos os dias bem cedo, mas aos domingos começa a preparar seu tradicional almoço em família já ao despertar.
     Junto ao ruído da gordura, escuto o esticar do coitado de um bife posto sobre uma tábua de carnes levando umas marteladas pesadas.
     Esta senhora faz-me lembrar minha mãe com seus bem mais de oitenta anos, beirando os noventa. Com uma saúde que vai levá-la a mais de cem. Porém, sempre carrega um sorriso em seu rosto que não reflete o sentimento interior - perda, solidão, sofrimento de uma vida de trabalho duro. 
     Quem sou eu para que venha confrontá-la, julgá-la e condená-la?
     Sou apenas um filho que quer deixá-la viver os seus momentos, a sua vida, a sua rotina. Seu gosto nem sempre saudável para a alma e o corpo, mas que a conforta e a acalma.

     Voltando ao cozido, que atiça a minha imaginação, penso em nosso almoço de hoje. Com minhas habilidades, consigo preparar um belo banquete em questão de minutos.
     Farinha de trigo, ovos e espinafre se transformarão num ravioili recheado de muçarela de búfala, por cima um delicioso molho de tomates e parmesão ralado. Para acompanhar, medalhão de baby beef ao molho Madeira. E, claro, não poderá faltar uma taça de vinho tinto italiano.
     Aos finais de semana almoçamos já no meio da tarde. Para meus filhos, o sábado acaba no despertar do domingo - uma tentativa de aliviar o estresse da semana de trabalho e estudo.

     Minhas habilidades!
     É isto. Isto que perturba os meus pensamentos. Estas múltiplas habilidades que contradiz o passado e não reflete no presente.

     Degusto vagarosamente o chá como se estivesse inconscientemente acompanhando o ritmo dos acordes da canção que atravessa a janela do meu quarto.
     Já não resisto ao calor que queima a minha pele e faz os meus olhos se fecharem quase que automaticamente. O chá que desce aquecendo continuamente a alma.
     Olhos fechados como se estivera dormindo. Vêm as lembranças como num sonho. Neste caso,  seria um pesadelo com as lambanças do passado.
     Passado mal executado de um futuro presente mal planejado.
     Com a mesma lentidão da canção e da degustação deste chá, fica difícil não descrever as lágrimas que escorrem timidamente pelo meu rosto.

     Olhando para este passado, vejo que o tempo passou rápido demais. Não tive serenidade e sobriedade para que os erros fossem corrigidos, ou melhor, nem cometidos: estar onde não queria estar, fazer o que não queria fazer, ter o que não queria ter, ser o que não queria ser - não tive capacidade de agir com equilíbrio, temperar a vida com sim e com não, com solidariedade e egoísmo, com compaixão e justiça. 
     Ao contrário de quando tento enxergar o futuro, parece que o tempo não sai do lugar - um futuro longo onde não se realiza, diante da minha idade cansada e abatida, onde ansiedade e depressão se confundem.

     Além do trabalho, que ainda sou obrigado a exercer, fico perdendo horas deste presente subindo e descendo o feed de uma rede social qualquer. Vendo coisas inúteis (raramente algo que seja verdadeiro e útil - há muita desinformação e desânimo), ou procurando um filme ou série em uma destas tantas plataformas de streaming.
     São tempos dolorosos que desgastam o meu coração. Tamanha é a desinformação e formação. Vivo numa sociedade extremamente individualista, que, de forma contraditória, vive numa histeria coletiva da luta do bem contra o mal sem saberem discernir o que é o bem e quem faz o mal, exatamente por pensarem individualmente - egocentrista e mesquinha.

     Fico quase sem esperança. Quase, porque o que conforta é que não podem ser todos os dias iguais.
     Há dias em que eu prefira o sol intenso com uma música pulsando nesta mesma intensidade. É quando conecto minha controladora, selecionando músicas em que preparo e faço o meu setlist de eletrônicas - house, technohouse, trance, tudo nestes estilos. Ou simplesmente deixo a aleatoriedade de uma estação musical qualquer tocar do rock ao pop dos anos 80 aos dias atuais.
     Tem algumas manhãs de inverno rigoroso (talvez minha estação favorita) que saio caminhando com passos lentos, sem pressa de chegar. Coloco as mãos nos bolsos para serem aquecidas e protejo a minha quase careca por um gorro preto, ficando as orelhas ainda geladas.
     Também pode ser gostoso quando a noite, quente ou fria, chega acompanhada de uma chuva batendo na janela do meu quarto enquanto posso me aquecer debaixo de um edredom, assistindo incansavelmente aos episódios de uma série pela madrugada inteira, ansioso pelo seu desfecho.
     Talvez, festejar alguns momentos com amigos, quando preparamos um churrasco neste jardim.
     Porém, há dias em que na mesa do jantar quando eu e meus filhos discutimos rotineiramente os mesmos temas - e ficamos horas e horas. Ou rimos de coisas tolas. Ou noites quando fico em silêncio sentado no sofá contemplando-o em seu hobby favorito, ouvindo seus longos discursos de jogos e estratégia. Compartilhando seu vasto conhecimento de diversos assuntos, dignos de um sábio intelectual autodidata - um orador nato com imenso espírito de liderança.

     E nestes meus momentos de pausa e solidão, aproveito para pegar meu laptop, abrir na web este meu blog e buscar criatividade para criar e contar histórias verdadeiras ou não; ou críticas à esta sociedade cruel e doente - dependendo do meu humor, da minha paciência, da minha insatisfação.

     A procura de palavras que se encaixem neste quebra-cabeças, discretamente olho para este céu e observo um azul claro e fosco, limpo com poucas nuvens distantes. Contemplo o rastro de um jato que voa muito alto. Pela altura, sei que vem de longe e vai para longe. Isto me inquieta ainda mais em querer viajar. 
     Assim como a minha mente, que é um viajante natural, diariamente divagando em meus pensamentos, meu corpo também quer descansar.
     Querendo que meu único trabalho seja despertar numa praia deserta onde possa apenas apreciar o nascer do sol, enquanto as ondas rebentam nas rochas. Aos únicos ruídos da fauna e da flora movidas pela essência da Terra, até que venha o pôr do sol.

     Por fim, no chão, ao lado da cadeira, pouso a xícara daquilo que há algum instante foi um saboroso chá e deixo a movimentação daquele fundo de tela trazer a trilha sonora para a manhã deste dia. Aproveitando que há sol neste inverno e, hoje, assim como a dualidade em meus pensamentos, quero esta mistura de sol e inverno, com uma brisa tão suave que quase não agita os galhos das árvores onde estes passarinhos saltam de um lado para o outro, com uma fina sensação gélida quando fujo à procuro de uma sombra.

     Enquanto as tarefas deste dia não vêm, continuo refletindo e descansando, entregue a este tempo - essência da minha natureza: pensando demais e agindo com pouco rigor. Sonhando e lamentando, como quem constrói e desfaz o caminho. Chorando e esperançoso, com lágrimas que pesam sobre sonhos que começam a desbotar.

     Imerso em meus devaneios, entre notas de um piano e acordes de um violão, escrevo - na tentativa de alcançar alguma lucidez.



por Wagner Pires
em Roteiros de Uma Rotina
Domingo, 2 de agosto de 2026