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No quintal da minha casa, eu ouço o cacarejar e, todo sorridente, Barry começa a me rodear, pensa estar na hora de irmos à praia.
É cedo, ainda vou apanhar os ovos, preparar o pequeno almoço, sem pressa, apreciando o silêncio da natureza.
Aliás, vou quebrar este silêncio sintonizando e aumentando o volume dos acordes dedilhados nas cordas no "Apreciar o Silêncio".
Sou um eterno eclético apreciador de música, faz-me viajar pelo universo, pelo tempo, pela minha mente. Traz lembranças e saudades. Alegria e tristeza. Motiva-me, desperta-me, conforta-me e, às vezes, é minha melatonina.
Deixo que a aleatoriedade do Youtube escolha a trilha sonora deste dia, enquanto me organizo.
Manhã, e o calor extremamente quente e ensolarado, sugestivo para um mergulho, pegar umas ondas. É só carregar minha kombi corujinha azul calcinha e sua encardida faixa branca, fabricada lá no final dos anos 60, originalzona, e fazer a alegria do Barry. Assim, pelo menos, ele deixe o Spielberg em paz deitado sobre o tapete, apenas abanando seu peludo rabo. Chico está no puleiro, quieto, nem um piu, talvez esteja concentrado nas músicas que estão indo dos anos 70 e 80, auge da era Disco.
Meu rosto traz a barba por fazer, e faz tempo, mas e a preguiça?
Deixa como está.
O cabelo também pede um trato, um corte, mas o dinheiro anda escasso.
Talvez, à noite, possa fazer algum dinheiro na praça da cidade, o feriado se aproxima e os turistas possam comprar alguns dos meus artesanatos, ou dos quadros mal pintados, em textos mal redigidos.
- Vamos Barry, só vou vestir uma bermuda e enrolar um "cigarro de artista" para irmos embora.
Uma garrafinha de água para hidratar, a prancha, as cansadas pernas arrastando um chinelinho tão fininho que sente a quente e delicada areia da praia.
O Jão montou cedo a sua barraca. Trabalhador, gente boa. Empreendedor.
- Fala, Jão, de boa? Fez aqueles lanchinhos naturais para a gente, hoje? Trouxe, também, os brisadeiros para adoçar nosso paladar?
Ai sim, cara, boas vendas! Daqui a pouco eu chego no pedaço. Vou levar o Barry para dar uma refrescada, vou pegar umas ondas.
Com as poucas forças dos meus braços, começo a remar debruçado em minha tábua. Vou viajando por sobre as águas, rompendo a violência das ondas que vem da imensidão deste oceano. Sob as nuvens, poderia querer alcançar este distante horizonte onde o sol encontra o mar; deixando para traz a incontável quantidade de grãos da pálida areia.
Nem o frescor da possível chuva seria suficiente para refrescar a intensidade do calor que bate em minha cabeça.
Avisto cardumes que, se ao pescá-los, seria capaz de alimentar meu debilitado corpo. Misturados ao que é por mim plantado na humilde horta.
Gostaria de estender esta viagem adormecido sobre meu pranchão. Dormir debaixo do luar, ao relento, que seria suficiente para não sentir saudade do raso colchão, do fino lençol, da janela entreaberta. Do barulho dos insetos na madrugada, do quebrar das ondas nas rochas.
Uma dúvida é se eu poderia trocar a escuridão do silêncio das marés pela musicalidade Do meu dia-a-dia. O despertar do galo, o latido companheiro do Barry, o miado dengoso do Spielberg, o tagarelar do grasnado do Chico, em suas cores patrióticas.
Tudo não passa de um sonho vulgar. Portanto, volto-me à realidade e, sendo assim, continuo a escrever as Crônicas de Um Andarilho como um Roteiro de Uma Rotina neste Silêncio, O Culto.
E, como um artesão, manuseio as palavras como matéria prima para finalizar uma peça, uma inútil peça teatral do meu COTIDIANO.
por Wagner Pires
in, Roteiros de Uma Rotina

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