domingo, 16 de junho de 2024

NO ANDAR DE CIMA

imagem: https://www.bloglovin.com/blogs/lunettes-roses-3501384/photo-5415202399


Eu, no andar de baixa, em meu único dia de folga e descanso, só queria estar dormindo.

Quase todos os domingos, quase todo o domingo,
As 6, as 8, ao meio dia, por todo o dia.
Não tem hora para começar, não tem hora para acabar.

Buzina, um grito, um chamado, um xingo.
Batem à porta, batem na porta, batem a porta.
Vizinhos, parentes, amigos, familiares, qualquer um que por ali passe.
Em pisadas pesadas e apressadas sobre a velha escada em madeira.
Sempre de qualquer maneira.

Voa uma latinha, voam várias bitucas que ficam ali mesmo pela calçada.
Já voou até um saco de lixo que rasgou e permaneceu por toda a madrugada.
Risadas, choro, palavras de baixo calão, palavras em tom nada baixo.
Não aceitam a expressão "não".
Divergências geram contendas.
Arrastam o brinquedo, arrastam a cadeira, arrastam o chinelo, arrasta a vassoura.
Problemas que vão sendo varridos para debaixo do tapete, d'uma vida que vai se arrastando.



Wagner Pires
Roteiros de Uma Rotina

sábado, 15 de junho de 2024

SOU UM PRIVILEGIADO?

https://roomofkarma.se/category/photography/


Noite de verão, não tão quente como nos dias de hoje, e as crianças nascidas nos anos 60 brincam na rua ainda de terra. Os vizinhos adultos sentados em bancos e cadeiras compartilham estas brincadeiras de esconde-esconde, pega-pega e tantas outros jogos. Aliás, alguns destes adultos dividem a rua em duas e vão brincar de queimada.
Hoje as crianças jogam os games em seus smatphones enquanto os adultos conversam com os vizinhos e familiares através de grupos no Whatsapp.

Telejogo, Atari, Mega Drive, Sega CD, Play Station, X Box....Jogos que evoluíram dos dois pontinhos para cartuchos, CDs, online jogados na TV.

Na copa do mundo do México em 1970 foi transmitida em preto e branco numa televisão de tubo revestida numa enorme caixa de madeira e coloca na janela do quarto dos meus pais. Virada para a calçada para que todos vizinhos pudessem assistir, visto que eram poucos que tinham recursos para comprarem uma TV.
TVs à válvula que transmitiam em preto e branco que só conseguiram transmitir o colorido mundo muito tempo depois.
Tela plana, plasma, LCD, LED, 4k, Ultra HD. Analógica com suas enormes antenas instaladas sobre os telhados. Pequenas antenas embutidas onde servia de apoio para a esponja de aço para judar a captar o sinal. Antenas parabólicas, TVs a cabo, Streaming. TVs digitais e SmarTV.

O mundo em preto e branco de rolos de filmes fotográficos, até o surgimento da revelação colorida, revelam a calça boca de sino, a estampa xadrez, a popularização do hoje tão comum Jeans. Jeans indigo: o blue jeans. O Jeans desbotado, a calça rasgada. Calça cintura alta, calça bag, Saint Tropez. Cos alto, cos baixo, cos duplo.

A moda é cíclica, assim como os costumes são cíclicos. A sociedade repete os mesmos erros e acertos de gerações distantes.
Uma geração que nasceu nos anos 50, 60, 70 atravessou o século e atravessou o milênio. São apenas números que determinam o tempo, apenas registrados nos calendários.
Relata a idade das rugas, das dores, dos fatos, hitórias. Das experiências vividas.

Histórias que hoje são escritas em blogs, nas redes sociais, ou ainda, ditas através de curtíssimos vídeos de uma nova geração com pressa e sem paciência. Esta nova geração que não lê, não escreve, apenas enviam áudios, dificultando o seu próprio aprendizado.
As histórias eram registradas em agendas, diários. Conversadas por cartas que demoravam para chegar. Bem diferente dos e-mails, chats, messenger e apps que foram surgindo.

Na metade dos anos 90 a internet era uma selva desconhecida a ser desbravada. Atualemente se você não está conectado é um desconhecio ou um ser inexistente. Tudo tem de passar pela rede: nascimento e morte, a compra e a venda, o pagamento e o recebimento, o casamento a separação. Alguns namoros e casamentos de quem se conheceu pela rede. Descasamentos causados pela rede.

Os computadores em cartões perfurados foram abandonados quando vieram os enormes disquetes, que posteriormente foram compactados. O surgimento do CD e DVD, para depois darem espaço para os cartões de memória, que também foram diminuindo de tamanho e aumento em capacidade de armazenamento de dados. Claro, hoje eles também são obsoletos, afinal tudo é guardado em nuvem.

Os pesados, robustos e desajeitasdos telefones de mesa com um fio ligado à parede, que utilizavam um disco para efetuarem uma chamada, virou peça de museu. Neste museu, eles têm a companhia de sua evolução posterior, o telefone digital, por teclas, também de mesa. Deixou as cores básicas, o preto e o branco, para o colorido: marrons, amarelos, vermelhos, verdes, de acordo com a invenção e design de seus criadores afim de criarem marketing e tendência.
Surgiu a telefonia celular. Os primeiros que por aqui apareceram tinham pesadas e grandes baterias, pareciam tijolos encaixados num "coldre" preso à cintura. Para uma boa comunicacão era necessário levantar uma antena que estava embutida. Era extremamente chamativo usar estes trambolhos num transporte coletivo.

Por falar em transporte coletivo, já andei de bonde, trem, metrô. Carro a diesel, a gasolina, álcool, gás. Hoje são híbridos e ainda os elétricos. Não sei se estes serão longevos, já estão apresentando algumas deficiências quanto a sua praticidade e custo. Se é que realmente não agridem o meio ambiente.

Estas gerações de 40 a 80 parece que ainda não acordaram para a necessidade de preservar o meio ambiente para as gerações futuras. Teimam em desacreditar na ciência. Uma geração que ainda coloca a religião acima das evidências, acima das comprovações científicas.

Gerações que questionam o homem na lua, que o mundo seja uma esfera. Desacreditam que tivemos que enfrentar uma pandemia, quase 100 anos depois da última pandemia. E que a evolução da ciência foi capaz de produzir muito rapidamente uma vacina que evitasse que esta pandemia se tornasse uma catástrofe muito maior do que ela foi.

O que eu considero ser privilegiado não é ter andado num robusto Gordini, DKV, Aero Willis. Pedalado numa pesada bicicleta de ferro fundido e hoje poder desfrutar da leveza da fibra de carbono.
Abandonado o ferro que corrói pelo resistente alumínio. Das casas com pesados tijolos que deram lugar para o prático e simples Dry-Wall.
Nem ter vivido as fases da economia mundial: compra da casa, do carro, bens elétricos e eletrônicos e hoje vivermos a fase do bem estar: academia, alimentação saudável, medicamentos para emagrecer, cirurgias plásticas, turismo, pets.
Muito menos ter sobrevivido à crise sanitária causada pela pandemia.

Privilégio é si mesmo acompanhar estas evoluções e alterações. É crescer interiormente. Expandir os horizontes da mente. Acompanhar e entender estas novas gerações. Saber dialogar, discutir. Compartilhar ideias; ensinar e aprender. Mesmo que não concordando, mas aceitando a nova formação estrutural da sociedade. Não teimosamente ficar com a mente presa em dogmas e preceitos medieval e arcaico como se estivéssemos vivendo um feudalismo contemporâneo controlados pela aristocrasia, burguesia e o clero.

Num mundo globalizado quase sem fronteiras, os pensamentos devem ser globalizado e sem fronteira.



Wagner Pires
Silêncio, O Culto

domingo, 9 de junho de 2024

ONDE ISTO VAI PARAR

fonta da imagem: Symbolbild-Foto-pixabaycom-769939


Os memes por aí dizem que "o brasileiro tem que ser estudado".

Na verdade o brasileiro precisa é estudar. O estudo desenvolve a cultura, o conhecimento, a educação e o respeito às pessoas.

Ontem, na rede social vizinha, uma jovem mãe a filmou dentro de um ônibus, possivelmente na cidade do Rio de Janeiro, onde o motorista conduzia em alta velocidade e cometendo várias imprudências. Ela pedia aos gritos que alguém cedesse um banco para que ela e o bebê de 7 meses pudessem se sentar. Filmou vários tipos de pessoas: crianças, jovens, senhores, senhoras...e ninguém se manifestou, todos ignoravam a mulher e a filmagem.

Pois bem, semana passado eu fui ao supermercado e ao chegar no caixa duas moças com duas crianças já estavam finalizando suas compras. Porém, deixaram alguns sucos de uva em caixinhas de 200ml ainda sobre a esteira porque não iriam mais leva-los - não tiveram o trabalho de retira-los, deixa-los ao lado, ou devolve-los, apenas deixaram para que o próximo palhaço tirasse do caminho. No momento de pagarem suas compras, uma delas pediu para a operadora que dividisse em 3 cartões. Passou o primeiro terço no crédito, o segundo terço no vale alimentação e o terceiro, e último, seria pago no débito, cartão este que ela foi buscar com a outra mulher. Ao tentar efetuar o pagamento o cartão foi recusado, foi quando percebeu que era o cartão errado. Voltou a ir até à outra mulher para pegar o cartão correto. E eu continuava a esperar com as minhas compras sobre a esteira. Neste momento chega o marido com mais produtos e pergunta à mulher porque já estava efetuando o pagamento visto que ele ainda tinha mais coisas a serem pagas. Ele deixa uma peça de carne e alguns outros produtos na minha frente para pagar, mas saiu para buscar o pacote de sal grosso que havia esquecido. Eu continuava ali parado, aguardando. A mulher tentava pagar o último terço da compra anterior, mais uma vez não foi autorizado, desta vez a senha estava incorreta. Já que o caixa ao lado desocupou eu disse: "fiquem à vontade, afinal o caixa é de vocês mesmo?!"

Hoje, mais uma vez, fui ao supermercado para fazer as compras para o almoço de domingo. Acordei meio tarde, estava cansado da semana que foi bem puxada, e tive que ir às pressas para não atrasar tanto o almoço - ilusão. Chego ao caixa exclusivo para pessoas acima de 60 anos, entre outros, e à minha frente 3 pessoas: uma moça já finalizando suas compras, uma outra jovem moça com o carrinho lotado e imediatamente a minha frente um rapaz com uma criança de uns 6 ou 7 anos. Ou seja, nenhum destes três se encaixavam no critério de caixa preferencial. O rapaz olha para mim, olha para meu carrinho de comrpas, olha para o filho e o retira de dentro do carrinho de compras dele e o segura ao colo (inutilmente, pois este tipo de situacão não é considerada preferencial, não é um bebê de colo).

Mais uma vez vejo ao lado um caixa quase vazio, não digo nada e prefiro trocar de caixa. Um casal de idosos finalizando suas compras, meio atrapalhados, e em seguida uma senhora com 3 pacotes de macarão, 3 sachês de molho de tomate pronto, 3 latinhas de extrato de tomate e uma garrafa de 1,5 litros de guaraná Antarctica. O casal finalizava o pagamento já com a esteira livre para a senhora colocar seus produtos, porém ela, sem pressa alguma, já que aparentemente seu almoço de domingo ficaria pronto em uns 15 a 20 minutos, não tirava os olhos de seu celular verificando algumas conversas whatsapp, deslizando para cima e para baixo.

Quando o casal finalmente partiu a atendente cumprimentou a senhora e pediu para que ela pudesse colocar seus produtos na esteira. Lentamente os colocou um a um, se deslocou para a frente e simplesmente me ignorou deixando o carrinho de compras dela vazio no caminho. Mais uma vez o palhaço tem que fazer o serviço dos outros e colocar o carrinho onde não atrapalhasse mais ninguém. Passado todos os produtos no leitor a atendente questiona qual seria a forma de pagamento. Ela vira-se para a atendente e pergunta se no supermercado havia caixa eletrônico porque ela estava com um problema no cartão e teria que sacar o valor. Não consegui entender que problema seria este em que o cartão passa num caixa eletrônico, mas não passa na máquina de cartão do caixa. A atendente diz que tem e que provavelmente ela não conseguiria sacar o dinheiro porque o caixa estava com problemas. Mesmo assim ela deixa suas compras já registradas no caixa, eu esperando e vai à procura do tal caixa eletrônico. Volta sem sucesso. A atendente sugere para ela se cadastrar online no cartão de crédito do supermercado. Eu com minha paciência que sempre é próxima à zero pergunto se ela está a passeio, fazendo turismo, porque eu estou fazendo compras. Ela, ainda se cadastrando no cartão, e tendo dados incorretos, vira-se para mim e diz que o problema são estes velhos da terceira idade que são rabujentos. Eu pergunto à ela: se é o meu problema, possivelmente seria o dela também, porque se não fosse ela não deveria estar num caixa preferencial para este tipo de pessoa, idosa. Sínica, tenta me mostrar seu documento comprovando sua idade de 67 anos apesar da sua "aparência não demonstrar", segundo ela. Eu tive que rir porque realmente a aparência dela não demonstrava ter apenas 67 anos, parecia algo próximo aos 80 anos. Num calor de mais de 27ºC, esta senhora trajava um casaco de couro com pelos nas mangas, na gola e nos punhos; uma bota com um salto de 15 centímetros, vestindo uma calça de couro preta bem fajuta. Tudo isso para ir ao supermercado ao meio dia de um domingo ensolarado. Sua falta de senso não era apenas com sua aparência física, mas também com sua vestimento.


Não me interessa a aparência dela, a idade dela, sua alto estima, suas vestes, ou ainda qual seira o cardápio do seu almoço, tudo isso foi apenas para ilustrar esta crônica. O que interessa mesmo nestes 3 fatos acima mencionados é a falta de respeito dos cidadãos com as outras pessoas. Sejam elas homens ou mulheres, jovens ou velhos, rico ou pobre, preto ou branco. Ninguém não está nem um pouco preocupado com o semelhante.

Conclusão, o brasileiro, em geral, com raríssimas excessões, não respeitam filas no supermercado, filas no ponto de ônibus, faixa de pedestre, não respeitam nada e ninguém.

Tenho "n" histórias vividas no atendimento ao público que comprovam esta minha visão. E tenho tantas outras histórias de fatos que presencial principalmente nestes últimos anos (melhor dizendo, desde que retornei ao Brasil). Não é uma visão de um antinacionalista, é o COTIDIANO que acompanho in loco e online. Um ufanismo irritante, que transformam estas pessoas em arrogantes e soberbas. Preocupadas apenas com si mesma. Não são fatos exclusivos de desconhecidos, mas também de conhecidos, amigos e familiares que agem desta mesma forma egocêntrica.

Vendo isto eu me pergunto, e não me preocupo, como será o Brasil daqui 10, 20, 50 anos?



Wagner Pires
in, Roteiros de Uma Rotina