sábado, 2 de maio de 2015

DIGA NÃO ÀS DROGAS

          Não costumo publicar nada que não seja de minha autoria, mas este texto de Luis Fernando Veríssimo é sensacional:

          "Tudo começou quando eu tinha 14 anos e um amigo chegou com aquele papo de "experimenta, depois, quando você quiser, é só parar..." e eu fui na dele. primeiro ele me ofereceu coisa leve, disse que era de "raiz", "natural", da "terra", que não fazia mal, e me deu um inofensivo disco do Chitãozinho e Xororó e em seguida um do Leandro e Leonardo.
          Achei legal, coisa bem brasileira; mas a parada foi ficando pesada.
          O consumo cada vez mais frequente, comecei a chamar todo mundo de "amigo" e acabei comprando pela primeira vez.
          Lembro que cheguei na loja e pedi:
- Me dá um CD do Zezé de Camargo e Luciano.
          Era o princípio de tudo!
          Logo resolvi experimentar algo diferente e ele me ofereceu um CD de Axé. Ele dizia que era para relaxar; sabe, coisa leve...banda Eva, Cheiro de Amor, Netinho, etc.
          Com o tempo, meu amigo foi oferecendo coisas piores: É o Tchan, Companhia do Pagode, Ása de Águia e muito mais.
          Após o uso contínuo eu já não queria saber de coisas leves, eu queria algo mais pesado, mais desafiador, que me fizesse mexer a bunda como eu nunca havia mexido. antes, então, meu amigo me deu o que eu queria: um CD do Harmonia do Samba. Minha bunda passou a ser o centro da minha vida, minha razão de existir. eu pensava por ela, respirava por ela, vivia por ela!
          Mas, depois de muito tempo de consumo, a droga perde o efeito, e você começa a querer cada vez mais, mais, mais...Comecei a frequentar o submundo e correr atrás das paradas.
          Foi a partir daí que começou a minha decadência. Fui ao show de encontro dos grupos Karametade e Só pra Contrariar, e até comprei a revista Caras que tinha o Rodriguinho na capa.
          Quando dei por mim já estava com o cabelo pintado de loiro, minha mão tinha crescido muito em função do pandeiro, meus polegares já não se mexiam por eu fazer o tempo todo o sinal de positivo.
          Não deu outra, entrei para um grupo de pagode. enquanto outros viciados cantavam uma música que não diziam nada, eu e mais doze infelizes dançávamos alguns passinhos ensaiados, sorríamos, fazíamos sinais combinados.
          Lembro-me de um dia quando entrei nas Lojas Americanas e pedi a coletânea As Melhores do Molejão. Foi terrível!
          Eu já não pensava mais! Meu senso crítico havia sido dissolvido pelas rimas miseráveis e letras pouco arrojadas. Meu cérebro estava travado, não pensava em mais nada. Mas a fase negra estava por vir. Cheguei ao fundo do poço, no limiar da condição humana comecei a escutar Popozudas, Bondes, Tigrões, Motinhas e Tapinhas. Comecei a ter delírios e dizer coisas sem sentido.
           Quando saia a noite para as festas pedia tapas na cara e fazia gestos obscenos. Fui cercado por outros drogados, usuários das drogas mais estranhas; uns nobres queriam me mostrar o "caminho das pedras" outros extremistas preferiam o "caminho dos templos". Minha fraqueza era tanta que estive próximo de sucumbir aos radicais e ser dominado pela droga mais poderosa do mercado; a droga limpa.
          Hoje estou internado em uma clínica, Meus verdadeiros amigos fizeram única coisa que poderiam ter feito por mim. meu tratamento está sendo muito duro: doses cavalares de Rock, MPB, Progressivo e Blues. Mas o meu médico falou que é possível que tenham que recorrer ao Jazz e até mesmo a Mozart e Bach. Queria aproveitar a oportunidade e aconselhar as pessoas a não se entregarem a este tipo de droga. Os traficantes só pensam no dinheiro. Eles não se preocupam com sua saúde, por isso tapam a sua visão para as coisas boas e te oferecem drogas.
          Se você não reagir, vai acabar drogado: alienado, inculto, manobrável, consumível, descartável e distante; vai perder as referências e definhar mentalmente.
          Em vez de encher a cabeça com porcaria, pratique esportes e, na dúvida, se não souber distinguir o que é droga ou não, faça o seguinte: não ligue a TV no Domingo à tarde; não escute nada que venha de Goiânia ou do interior de São Paulo, não entre em carros com adesivo escrito: "Fui..."
          Se te oferecerem um CD, procure saber se o suspeito foi ao programa da Hebe ou se apareceu no Sabadão do Gugu; mulheres gritando histericamente é outro indício; não compre nenhum CD que tenha mais de seis pessoas na capa; Não vá a shows onde os suspeitos fazem gestos ensaiados; não compre nenhum CD que a capa tenham nuvens ao fundo; não compre qualquer CD que no Brasil tenha vendido mais de um milhão de cópias no Brasil; e não escute nada que o autor não consiga uma concordância verbal mínima. Mas, principalmente, duvide de tudo e de todos.
          A vida é bela! Eu sei que você consegue! Diga não às drogas!


Luis Fernando Veríssimo

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